No dia 20 de maio de 2005, aos 51 anos de idade, a costureira Ivone Barbosa da Silva ganhou uma nova vida. Nessa data, ela passou por um transplante de coração, o quinto realizado na Paraíba. Vinte anos depois do procedimento e aos 71 anos de idade, ela esbanja saúde e gratidão à família que autorizou a doação do órgão. Dona Ivone também é um exemplo da segurança, da longevidade e da qualidade de vida proporcionadas pelo procedimento a quem antes teria, no máximo, uma sobrevida de seis meses, de acordo com as estatísticas médicas.
Nas últimas décadas, a sobrevida dos pacientes transplantados vem apresentando avanços significativos, principalmente devido à evolução dos medicamentos imunossupressores. Esses fármacos têm um papel fundamental na prevenção da rejeição do órgão transplantado, contribuindo para o prolongamento e qualidade de vida.
Além da melhora na sobrevida, outro avanço importante diz respeito à ampliação da faixa etária para indicação do transplante. Na década de 1980, no Brasil, 50 anos, em média, era a idade limite para a realização do procedimento. Depois, aumentou para 60. E já houve nova mudança na faixa etária.
“Hoje em dia, é possível fazer o transplante em pessoas com até 70 anos de idade, mas, obviamente, depende da condição física e da saúde do paciente. Tem que ver não só a idade cronológica, como também a idade biológica, ou seja, a condição clínica geral para o procedimento cirúrgico e para o pós-operatório”, explicou o cirurgião cardiovascular Maurílio Onofre Deininger, chefe da equipe que realizou o transplante de Dona Ivone no Hospital Alberto Urquiza Wanderley, unidade de alta complexidade da rede própria de atendimento da Unimed João Pessoa.
ACELERAÇÃO DA RECUPERAÇÃO
Maurílio Onofre chefiou a equipe que realizou o primeiro transplante de coração da Paraíba, no dia 23 de maio de 2004. O procedimento ocorreu no Hospital Alberto Urquiza Wanderley, único que oferecia estrutura para uma cirurgia dessa complexidade e que também é pioneiro no estado na realização de transplantes de fígado e de rim.
No ano passado, o médico trouxe uma inovação, que aumentou a segurança e proporcionou ainda mais qualidade de vida para os pacientes submetidos a esse tipo de procedimento no Hospital Alberto Urquiza. Pela primeira vez, no Brasil, um transplante de coração foi realizado seguindo o Eras, um protocolo médico que garante a aceleração da recuperação com a adoção de condutas rigorosas que começam no pré-operatório.
Maurílio Onofre já vinha utilizando o Eras, desde março de 2023, em outras cirurgias cardíacas realizadas no Hospital Alberto Urquiza Wanderley, que foi a segunda unidade do país e primeira do Nordeste a adotar o protocolo. Com o sucesso alcançado, ampliou para os transplantes. “Em condições normais, o paciente transplantado fica no hospital até três semanas após a cirurgia. Com o Eras, esse período fica em torno de dez dias”, informou. “O paciente saiu da sala de cirurgia acordado, se alimentou em menos de 24 horas e andou precocemente”, contou o médico.
ALEGRIA DE VIVER
Mas a medicina não consegue os resultados esperados sem a participação do paciente. A longevidade de Dona Ivone se deve em grande medida à disciplina e hábitos saudáveis adotados. Aposentada, ela tem uma vida tranquila: toma os medicamentos na hora certa, cuida da dieta, pratica pilates e caminhada, viaja, cultiva boas relações e ainda encontra tempo para cantar no coral da igreja evangélica que frequenta com regularidade. A cada seis meses, vai à consulta médica para reavaliação.
Outro hábito que cultiva é a gratidão. Ela disse que não ganhou apenas um novo coração, mas uma nova família. Recuperada do transplante, quis conhecer os parentes do doador, que moram no estado de Rondônia. O desejo foi recíproco e hoje se comunicam com frequência pelas redes sociais. Dona Ivone já chegou, inclusive, a recebê-los em sua casa. Todos os anos, na data de aniversário do transplante, ela envia uma mensagem de gratidão à família, pela qual é considerada uma irmã.
DEVER CUMPRIDO
Para Maurílio Onofre, a sensação é de dever cumprido. Depois de todos esses anos e da experiência adquirida, ele diz que a emoção é a mesma ao ver, não só o paciente, mas toda a família bem. “Quando tem um doente aguardando transplante, toda a família ‘adoece’, fica vivendo aquele momento de ansiedade, de espera por um órgão. Então, quando você consegue um órgão, você tira esse peso de toda a família”, disse.
Ele comentou que o transplante tem um aspecto emocional muito grande, que envolve também os parentes do doador. Mas, com solidariedade e amor ao próximo, essa família transforma um momento trágico em esperança e vida. Dona Ivone sabe bem o que é isso.


